terça-feira, 16 de novembro de 2021

Recomendação de leitura: Um parque De Diversões Da Cabeça de Lawrence Ferlinghetti

Embalados pelo compasso do jazz ao som de John Coltrane, Miles Davis e Thelonious Monk, houve uma geração de escritores nos anos 50 influenciados pelo antimaterialismo budista, que questionou os valores da sociedade norteamericana. Uma geração com um olhar diferente sobre o que é literatura, um olhar mais libertário sobre padrões estéticos da arte. Frases enormes sem pontuações ou vírgulas, onde parece que alguém senta-se em sua frente e começa a contar alguma história da qual vivenciou, de maneira frenética, viajando do norte ao sul dos Estados Unidos ou países do oriente médio como Marrocos. Vírgula colocada fora de um padrão acadêmico, ou muitas vezes parecendo uma espécie de colagem dadaísta (talvez o livro que mais tenha essa estética seja Almoço Nu de William S. Burroughs, considerado um mentor desta geração). 
Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William S. Burroughs, são tidos como a “trindade” desta geração. Tiveram mulheres como Diane Di Prima, Elise Cowen e Hettie Jones que fizeram parte deste movimento literário. Eles também tiveram um editor, pintor e poeta: Lawrence Ferlinghetti. O que se sabe sobre seu nascimento, é que nasceu na Itália logo após a morte do pai, italiano e anarquista. Foi levado para a França e criado por uma tia. Aos 6 anos de idade, mudaram-se para Nova Iorque. A tia sumiu e anos mais tarde Ferlinghetti foi adotado por imigrantes franceses e descobriu que a sua tia havia falecido em um hospital, infelizmente como indigente.
Mas o que Um Parque de Diversões da Cabeça tem a oferecer? A primeira parte do livro é composta por apenas um só poema extenso, forte, embebido em um surrealismo que muitas vezes soa “bunuelesco”. A primeira coisa que se percebe é sua métrica totalmente inusitada em seus versos brancos descartando qualquer tipo de rima. Não critica apenas os valores americanos e o seu “American Way of Life”, mas também te leva a uma viagem, a uma ode a liberdade criativa. Como o próprio Ferlinghetti havia dito em Um Parque de Diversões da Cabeça, ele expressa um circo da alma, espontâneo e jazzístico.
Já na segunda parte do livro, podemos perceber algumas rimas e como ele próprio escreveu no livro: Estes sete poemas foram concebidos especificamente para acompanhamento jazzístico e, como tal, devem ser mais considerados como discursos espontâneos, “mensagens orais” do que como poemas redigidos para a página impressa. Agora soando mais imagético e sendo composto não por apenas um poema extenso, é quase como se ele tentasse simular pinturas impressionistas na cabeça do leitor, mas ainda com surrealismo e trazendo uma temática existencialista e em algumas vezes, fazendo uma mistura de métricas.
Um Parque de Diversões da Cabeça é um abraço caloroso a liberdade criativa, é um olhar afiado, carinhoso e agressivo sem dualismo sobre a humanidade e sobre os Estados Unidos.


Nathanael Fialho

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